Transformação do Praiense em SAD divide opiniões

2019-01-11

Transformação do Praiense em SAD divide opiniões

O Sport Clube Praiense reúne hoje, pelas 20h00, na sua sede social, numa Assembleia-Geral Extraordinária, cujo primeiro ponto da ordem de trabalhos é para deliberar "sobre a constituição de uma Sociedade Anónima Desportiva (SAD), por personalização da equipa sénior de futebol que participa no Campeonato de Portugal".

O acordo para a constituição da SAD está praticamente concluído, faltando apenas o "sim" dos associados. Caso a direção receba luz verde da reunião magna desta noite, o processo deve ficar concluído até ao final do próximo mês. No entanto, a matéria divide opiniões entre sócios e simpatizantes.

Marco Monteiro, Presidente do Clube, explica que por detrás da proposta de criação da SAD para gerir o futebol sénior da coletividade existe um investidor estrangeiro, o empresário espanhol Luis Oliver.

Este empresário com ligações a clubes como o Córdoba ou o Bétis de Sevilha, investirá no Praiense exigindo ficar com 70% do capital da SAD. Tal acordo, se receber o voto favorável dos sócios encarnados da Praia permitirá um encaixe financeiro imediato para o Praiense na ordem dos 150 mil euros.

Marco Monteiro garante que o Clube mantém a sede e o setor da formação, sendo apenas gerido pela SAD o futebol sénior. O objetivo é claro: num prazo de cinco anos levar o Praiense à I Liga de futebol em Portugal.

Na Assembleia Geral desta noite serão explicados todos os pormenores deste acordo que “não está dependente da subida do Praiense à II Liga” no final da presente época.

Segundo o RCA conseguiu apurar se as intenções da atual Direção do Praiense não forem acolhidas pelos sócios, pode o Clube passar por uma crise diretiva.

Entretanto, o tema é o mote de todas as conversas hoje na Praia da Vitória, e não é consensual. Tiago Ormonde, antigo Presidente do Clube, atualmente Vereador da Câmara Municipal da Praia da Vitória com o pelouro do desporto, escreveu hoje mesmo uma carta aberta a todos os sócios do Clube, publicada no jornal “Diário Insular” e nas redes sociais. Ormonde começa por dizer que “após uma década de dedicação e serviço ao Sport Club Praiense, na qual exerci várias funções executivas, decidi que, em virtude das funções públicas que exerço na Câmara Municipal e em nome dos princípios da transparência, não estarei presente nessa Assembleia Geral”.

Tiago Ormonde discorda em absoluto da proposta avançada pela Direção de Marco Monteiro e escreve-o: “Aprovar a SAD, entregando de imediato 70% a um privado, com espírito puramente empresarial, desconhecido e sem historial no passado do Clube, é dizer adeus ao nosso Praiense. Infelizmente, não há outra forma de dizer isto. Quem detém 70% do capital de uma empresa detém o poder total e absoluto. Poderá tomar as decisões que entender; pode inclusive tomar decisões contra a vontade dos sócios. Depois de vendido, não podemos voltar atrás. Será irreversível. Considero que o Praiense criar uma SAD e ficar com apenas 30%, significa abdicar dos seus princípios e esvaziar a sua identidade. Uma derrota dolorosa. Até podemos ganhar tudo desportivamente. Mas já não serão vitórias nossas. Serão de outros. O Praiense deixará de representar a identidade da terra que lhe deu o nome (…) Rejeito que a dedicação, sacrifício e privação de tantos praienses seja vendida de forma tão leviana e célere a quem não sente o que nós sentimos”.

Outro nome sonante da sociedade praiense, o empresário Luís Vasco Cunha, patrocinador da equipa de futebol sénior, reage também ao assunto nas redes sociais. Como comentário à carta aberta de Tiago Ormonde, Vasco Cunha escreve: “A hipótese de o Praiense ter uma SAD é algo que acho bom discutir. Não entendo a pressa em todo este processo: sessão se esclarecimentos nos dias de Natal; Assembleia Geral em dia de futebol do Benfica; não haver contactos com outros possíveis investidores, a começar pelos sócios… Parece gato escondido com rabo de fora!”.

Outra reação contrária à proposta da Direção de Marco Monteiro é a do antigo jogador formado no Clube, João Borges. O Avançado hoje ao serviço do Grupo Desportivo das Fontinhas, fez toda a sua formação nos escalões jovens do Praiense, e perante a discussão do dia escreveu no seu facebook: “Ninguém pode vender 71 anos de história, ninguém pode vender a infância de muitos, ninguém pode vender a Glória de muitos, ninguém pode vender o que os nossos avôs criaram, ninguém pode vender o nosso sacrifício, ninguém pode vender as nossas feridas e lesões, ninguém pode vender 14 anos disto! Não dêem o Praiense a qualquer um, sem saber o seu destino”, lembrando o que, atualmente, está a suceder com um histórico clube do futebol luso: “Metam os olhos no Belenenses e no que a sua SAD lhes trouxe, uma divisão do Verdadeiro Belenenses, da mística, e do Belenenses do dinheiro e dos interesses”.