30 de janeiro de 1969: Os Beatles deram o seu último concerto ao vivo

2019-01-30

30 de janeiro de 1969: Os Beatles deram o seu último concerto ao vivo

30 de janeiro de 1969. Os Beatles deram o seu último concerto ao vivo, enquanto banda idolatrada por multidões em todo o mundo. Foi no terraço da Apple, editora dos “Fab Four”.

Foi o êxtase no terraço da sede da editora da banda, abruptamente interrompido pela polícia, atónita pelo inusitado ato dos quatro de Liverpool.

O jornal português “Diário Popular” preencheu grande parte da sua primeira página, do dia 18 de janeiro de 1969 com a notícia: “Os Beatles zangaram-se”.

A notícia era interessante para o regime marcelista. O fim dos Beatles representaria o acabar das “más influências” que o grupo estava a provocar na juventude nacional, cuja “obrigação era defender o Ultramar”.

George Harrison, de 25 anos, foi para casa de seus pais em Liverpool, depois de uma discussão com John Lennon, de 28 anos, que admitiu que a Apple estava a perder dinheiro semanalmente. A discussão ocorreu nos estúdios de Twickenham, onde os Beatles estavam a ensaiar.

Os técnicos descreveram a discussão como “muito acalorada”. Um empregado da Apple, porém, deitou água na fervura, afirmando: “tratou-se apenas de uma pequena querela pessoal e os ensaios terminaram cedo nesse dia. A vida entre os Beatles nunca foi um completo mar de rosas”.

Em 1969, especialmente Paul McCartney, procurava encontrar a solução mágica que evitasse o desmembramento do grupo. Mas só conseguiu adiar o desenlace para 10 de abril de 1970.

Revigorado com umas férias em Portugal, Paul McCartney planeava um autêntico regresso às origens. Era a esperança: o regresso aos concertos ao vivo. Várias hipóteses foram lançadas para a mesa, algumas estapafúrdias, todas elas rejeitadas por John e George. Falou-se num anfiteatro romano no Norte de África ou mesmo num palco em pleno deserto do Saara. Ideias que só mesmo quem viveu aquela época poderia admitir.

Numa última e desesperada tentativa, Paul propôs então que se enfiassem os quatro numa carrinha e se apresentassem anonimamente numa igreja ou num pub. E chegou-se ao concerto de 30 de janeiro de 1969, no telhado do n.º 3 de Saville Row, Londres, uma das mais seletas ruas londrinas onde pontificam as alfaiatarias reais.

A Apple já lá não está desde 1972, mas os alfaiates permanecem, bem como a esquadra de polícia que recebeu a missão de devolver a ordem pública ao caos instalado pela ousadia inédita dos Beatles.

O concerto, no telhado, foi, afinal, o local mais próximo das discussões infindáveis nos estúdios da Apple. Longe ficavam as ideias de um concerto megalómano no cruzeiro “Queen Elizabeth II”, no aeroporto de Biafra, no Parlamento britânico, ou noutro local inóspito, ou proibido e onde a polícia os prendesse.

À hora do almoço, com um frio tal que dificultava os acordes, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, agasalhados com os casacos de Inverno das mulheres, levaram até ao telhado o organista Billy Preston e o cineasta Michael Lindsay-Hogg.

Num palco improvisado e no meio de câmaras de filmar, os Beatles tocaram durante 42 minutos “Get Back” (três vezes), “Don't Let Me Down” (duas), “One After 909”, “I've Got A Feeling” (duas) e “Dig A Pony”.

Quando a polícia, após dezenas de queixas dos “gentlemen” de chapéu de coco, chegou para repor a “normalidade”, já os Beatles se sentiam satisfeitos.

A polícia foi simpática e não os prendeu, apenas solicitou, delicadamente, que os Beatles baixassem o som da amplificação. “Shit!”, pensaram os Beatles, lá se foi o “grand finale”!

O irónico da situação é que a multidão em Saville Row, de nariz no ar, não conseguia ver os Beatles, lá no alto, no telhado, só ouvia o som ensurdecedor que impedia até as reportagens de rua da televisão.

A cena mais caricata e sintomática ocorreu quando se vê um cavalheiro de cachimbo e chapéu de coco a subir uma escada de aço de telhado para melhor observar os “delinquentes sonoros”.

Não há edição oficial do concerto, embora alguns registos tivessem sido parcialmente utilizados no álbum e no filme “Let It Be” (e depois na série “Anthology”).

O inusitado concerto de há 40 anos ninguém viu, mas todos ouviram.

E não, os Beatles jamais acabarão!